Ex-servidores do Banco Central afirmam que sabiam da reputação do banqueiro Daniel Vorcaro em Belo Horizonte quando ele tentou assumir o controle do Banco Máxima, em 2019, e que documentos internos da autoridade monetária mostram que, mesmo com alertas, a operação acabou aprovada naquele ano. Foi a aquisição do banco então afundado em dívidas que ajudou o empresário a fundar o Master e a crescer no mercado financeiro com uma estratégia agressiva de negócios e contatos com altas autoridades.
Documentos obtidos pelo jornal Valor Econômico através da Lei de Acesso à Informação (LAI), publicados nesta terça-feira (14), mostram que a compra do Máxima por Vorcaro chegou a ser barrada na gestão de Ilan Goldfajn pouco antes de Roberto Campos Neto assumir a presidência do Banco Central.
No entanto, uma manobra contábil do empresário e o auxílio de um ex-diretor da autarquia ajudaram na reanálise do negócio, que acabou aprovado meses depois.
À Gazeta do Povo, a defesa de Daniel Vorcaro não quis se manifestar sobre a nova apuração. A reportagem também procurou o Banco Central para se pronunciar sobre as informações e aguarda retorno.
VEJA TAMBÉM:
Morte de “Sicário” de Vorcaro levanta suspeita de “queima de arquivo”, diz relator
Relatos de técnicos e ex-diretores ouvidos pelo Valor Econômico indicam que a má fama de Vorcaro era conhecida dentro da instituição desde o início do processo de aquisição do Banco Máxima, em 2019.
“Sabíamos que ele era picareta”, disse um ex-integrante da diretoria que preferiu manter o sigilo, ressaltando que o problema nunca foi formalizado como motivo oficial para barrar o negócio.
O primeiro pedido de compra foi rejeitado em fevereiro daquele ano, ainda na gestão de Goldfajn, com base em falhas na comprovação da origem do dinheiro e na capacidade financeira dos envolvidos. Segundo extratos de votos internos obtidos através da LAI, esses pontos técnicos foram suficientes para a negativa, sem necessidade de avançar na análise da reputação.
No entanto, fontes que participaram das reuniões afirmam que a discussão girou em torno da conduta de Vorcaro e de sua família, já conhecida no mercado mineiro. “Era um golpista conhecido”, relatou uma dessas fontes.
Critérios técnicos
Apesar disso, o Banco Central adotava critérios objetivos técnicos para vetar operações, exigindo, por exemplo, denúncia formal aceita pela Justiça. Como Vorcaro não tinha esse tipo de impedimento na época, a avaliação negativa de reputação ficou em segundo plano.
Os documentos também indicam que Vorcaro tentou assumir o controle do banco em diferentes etapas, começando com uma participação de 20% em 2017. Para esse tipo de entrada, já era exigida comprovação de origem dos recursos e reputação considerada adequada, ainda que a análise subjetiva fosse usada com cautela.
Ao mesmo tempo, o Banco Máxima enfrentava um rombo bilionário, o que pressionava o Banco Central a buscar uma solução de mercado. A liquidação da instituição poderia gerar um prejuízo de R$ 1,8 bilhão ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que pesou nas decisões internas – a autarquia tem como premissa tentar salvar o negócio antes de decretar uma liquidação, já que seus responsáveis podem ser alvos de processos futuros dos banqueiros afetados pela decisão.
Depois da recusa inicial, Vorcaro reapresentou o novo pedido em maio de 2019, com ajustes para atender às exigências técnicas. Ele reduziu o grupo de controle, regularizou pendências fiscais em seu Imposto de Renda e apresentou comprovação de recursos, o que levou o processo a avançar.
Na segunda análise, já sob Roberto Campos Neto, a preocupação com a reputação voltou a ser discutida. Ainda assim, prevaleceu o entendimento de que, cumpridos os requisitos formais, não haveria base legal segura para negar a operação.
Ex-diretor investigado pela PF
O processo contou, ainda, com a participação do então diretor de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, que a investigação recente da Polícia Federal descobriu que ele foi cooptado por Vorcaro para lhe fornecer informações privilegiadas sobre o andamento interno de processos referentes ao Master.
A defesa de Souza negou qualquer relação ilegal com o banqueiro e afirmou que “jamais favoreceu Daniel Vorcaro ou o Banco Master em sua atuação, sempre pautada na proteção do sistema financeiro e da sociedade”. Também ressaltou que a aprovação da venda do Máxima ao empresário foi uma “decisão colegiada do BC, sem defesa específica de qualquer membro pela aprovação, até por não corresponder ao rito adotado pela autarquia”.
A aprovação também considerou que eventuais problemas poderiam ser acompanhados pela área de supervisão do próprio Banco Central. Esse argumento ganhou força diante do aumento do risco financeiro do Banco Máxima, que ampliava o potencial de prejuízo ao FGC de R$ 3,2 bilhões.
Pouco depois da liberação, a Justiça chegou a decretar a prisão preventiva de Vorcaro por suposta participação em um esquema de desvio de recursos de fundos de previdência que atuavam em Roraima, mas a medida não foi cumprida e acabou revogada. O mandado levantou dúvidas internas sobre se o Banco Central deveria ter reavaliado a decisão diante de novos fatos.
Avaliação posterior sobre negócios de Vorcaro
Para técnicos da instituição, a legislação até permite rever autorizações em situações excepcionais, mas há divergência sobre o que caracteriza falta de reputação ilibada. Em geral, prevalece o entendimento de que apenas decisões judiciais mais robustas justificariam uma reversão.
“Teria sido bem mais barato liquidar [o Banco Máxima] em 2016 ou, no máximo, em 2019”, completou uma fonte ouvida pelo Valor Econômico.
A transformação formal do Banco Máxima em Master ocorreu oficialmente em 2021, após a aprovação total da transferência de controle pelo Banco Central. Naquele ano, Vorcaro fez um aporte de R$ 400 milhões para capitalizar seu novo negócio.
O Banco Master, que anteriormente como Máxima tinha foco no crédito imobiliário, foi reestruturado para atuar em crédito consignado e serviços financeiros. Por conta disso, além das fraudes descobertas pela Polícia Federal em operações com o Banco de Brasília (BRB) no valor de R$ 12,2 bilhões, passou a ser investigado pela CPMI do INSS por suposto envolvimento no esquema que desviou R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas.
Daniel Vorcaro foi preso preventivamente pela segunda vez no começo do mês passado por supostamente tentar atrapalhar as investigações e liderar o que seria uma “milícia pessoal” que coagia e ameaçava testemunhas e seus desafetos.













