Em menos de 48 horas após o ataque aéreo dos Estados Unidos e Israel contra alvos do regime iraniano, o preço do petróleo disparou 22,9%. A escalada do conflito levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um terço de todo o petróleo do mundo.
Mesmo que o impacto da guerra ainda não tenha chegado aos postos de combustíveis, a pressão para o repasse já existe, e o conflito só a intensificou.
O Estreito de Ormuz não é apenas uma rota marítima, é o único ponto de saída do Golfo Pérsico por onde escoa grande parte do petróleo e gás consumidos no mundo. Além do próprio Irã, inclui o escoamento da produção da Arábia Saudita, segundo maior produtor global, do Catar, principal exportador mundial de gás natural liquefeito (GNL), e de vários outros países. Bloqueado o estreito, toda essa produção fica retida.
O anúncio de fechamento pelo Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) representa, segundo analistas, um dos cenários mais graves para a economia global: uma escassez física de petróleo, sem solução de curto prazo.
Às 13h45 desta terça-feira (3), o contrato futuro do Brent, referência internacional para o preço do petróleo, para maio era negociado a US$ 82,43 — alta de 6,4% no dia e de 22,9% nos últimos 30 dias, segundo o portal Investing.com.
Impacto no preço de combustíveis
Embora o Brasil hoje exporte mais petróleo do que importa, ainda depende da importação de derivados, especialmente diesel. O país importa cerca de 25% do diesel consumido internamente, além de parcelas relevantes de gasolina e GLP.
Antes mesmo de o conflito começar, os preços dos combustíveis no Brasil já estavam defasados em relação ao mercado internacional — cerca de 25% no diesel e 11% na gasolina, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) e a StoneX.
Com a alta do petróleo, essa diferença tende a aumentar. A Petrobras passa a receber menos do que poderia pelas vendas de combustíveis, enquanto importadores privados, sem espaço para lucro, tendem a reduzir as importações.
Segundo Alexandre Maluf, Thiago Sbardelotto e Luiza Pinese, analistas da XP Investimentos, um aumento de 10% no preço do Brent provoca impacto direto de cerca de 0,25 ponto percentual na inflação. Embora pareça pequeno, o risco de reajuste cresce quando os preços no Brasil se afastam do mercado internacional.
No caso do diesel, o impacto é indireto, mas amplo. Como ele move o transporte rodoviário, o frete fica mais caro, e esse aumento acaba chegando aos preços de alimentos e produtos industrializados.
A alta do petróleo se propaga pela economia em ondas sucessivas. A primeira chega aos postos de combustíveis. A segunda atinge o frete rodoviário e, com ele, o transporte de mercadorias pelo país: alimentos, medicamentos, insumos industriais.
A terceira onda é mais silenciosa, mas não menos grave: o custo dos fertilizantes importados do Oriente Médio reduz a rentabilidade do agronegócio. Segundo analistas, com o prolongamento do conflito o efeito deve chegar à cesta básica do brasileiro já na safra 2026/27.
Petrobras: risco de interferência política em ano eleitoral
É nesse ponto que o conflito deixa de ser apenas um problema de mercado e se torna uma questão política, especialmente em um ano eleitoral. Com o petróleo em alta e o repasse pressionando, a Petrobras volta ao centro do tabuleiro, e com ela, a tentação histórica de usar a estatal como amortecedor da inflação.
Como explica Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), petróleo caro costuma atrair interferência política na Petrobras. “Essa ingerência política para segurar preços destrói a receita da empresa e compromete sua saúde financeira”, adverte Pires.
No entanto, o repasse ao consumidor, segundo a XP, é apenas questão de tempo, inevitável em poucas semanas caso a crise se prolongue.
O risco não é apenas financeiro, mas operacional. O Brasil depende de importações de diesel e GLP feitas por agentes privados que simplesmente não operariam com prejuízo.
A tentativa de subsidiar o combustível poderia repetir o erro histórico do governo Dilma. À época, a combinação de investimentos massivos no pré-sal com subsídios que represavam os preços da gasolina e do diesel resultou em uma dívida de US$ 130 bilhões no terceiro trimestre de 2015 — o maior endividamento da história da companhia, segundo a Economática.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, reforça o alerta: o problema se agrava ainda mais no ano eleitoral, quando a tentação política de segurar preços é maior.
“A Petrobras é uma petroleira que não gosta de petróleo alto demais, pois isso atrai pressões políticas que podem deteriorar a gestão e a lucratividade da companhia”, completa Pires.
Como a alta do petróleo chega ao seu bolso
Se a escalada do petróleo se prolongar, os efeitos vão muito além dos combustíveis. A combinação entre inflação em alta e crescimento em desaceleração, conhecida como estagflação, deixou de ser um risco remoto para se tornar o cenário base.
“Quando você tem um choque nos preços das commodities, isso gera tensões estagflacionárias com inflação mais alta e atividade menor”, diz Bruno de Moura Fernandes, chefe de pesquisa macroeconômica da Coface, uma das maiores seguradoras mundiais de crédito.
No Brasil, o repasse chega ao consumidor em ondas. A cada 1% de aumento na gasolina, o impacto é de 0,05 ponto percentual na inflação — efeito amplificado pelo transporte de mercadorias, que encarece alimentos e bens industrializados em toda a cadeia, detalha Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
Há também possíveis efeitos na taxa de juros, que pode ser mantida num patamar alto, e no canal cambial. Em momentos de guerra, o capital migra para portos seguros, fortalecendo o dólar e penalizando moedas emergentes como o real.
“A depreciação do real impõe um duplo fardo sobre o consumidor: via inflação ao varejo e ao atacado”, explica Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos.












