sexta-feira , 2 janeiro 2026
Lar Economia Fraude e pressão sobre o BC
Economia

Fraude e pressão sobre o BC

Dois meses após decretar a liquidação do Banco Master, o Banco Central enfrenta um cenário inédito: pressões simultâneas do Judiciário, do Legislativo e de órgãos de controle que questionam tanto a decisão quanto a condução do caso. A inspeção do Tribunal de Contas da União (TCU), decretada nesta sexta-feira (2), é apenas o mais recente episódio de uma crise que expõe os limites da autonomia técnica da autoridade monetária.

O Banco Master foi liquidado em 18 de novembro de 2025, após o Banco Central negar sua compra pelo Banco Regional de Brasília (BRB) em setembro. A autarquia alegou riscos excessivos e falta de documentação que comprovasse viabilidade econômico-financeira.

A liquidação ocorreu em meio a investigações criminais. Na véspera da intervenção, o CEO Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos quando embarcaria para Dubai, onde fecharia a venda da instituição para um grupo local. As investigações ocorrem no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura emissões de títulos de crédito falsos — estimativas apontam R$ 12 bilhões em ativos fraudulentos.

O esquema de fraude e a “limpeza contábil”

O Master utilizava um esquema sofisticado de “limpeza contábil” envolvendo a Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. A Reag, investigada pela Polícia Federal na Operação Carbono Oculto por suspeita de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), era a peça-chave do artifício.

O mecanismo era simples: o Master aportava dinheiro em fundos estruturados pela Reag, que depois compravam ativos ruins do próprio banco. Na prática, era como trocar débitos problemáticos por papéis que pareciam saudáveis — um artifício para mascarar a fragilidade real da instituição.

O volume dessa operação impressiona: aproximadamente R$ 11,5 bilhões. A manobra permitia que o Banco Master mantivesse artificialmente seus índices regulatórios, ocultando um déficit patrimonial real.

A crise oculta de liquidez

Mas a fraude contábil era apenas parte do problema. No dia da liquidação (18 de novembro), o Master tinha apenas R$ 4,8 milhões em caixa livre — enquanto os vencimentos imediatos eram dez vezes superiores: R$ 48,6 milhões em CDBs. Considerando os fluxos semanais, o banco acumulava R$ 120 milhões em vencimentos.

O recolhimento compulsório — depósitos que bancos são obrigados a manter no BC — era ainda mais alarmante. A exigência era de R$ 2,53 bilhões, mas o Master havia recolhido menos de R$ 25 milhões: menos de 1% do valor devido.

Essa crise crônica de liquidez era completamente mascarada pelos artifícios contábeis que faziam o banco parecer saudável nos balanços.

As pressões institucionais começam

Quando essas revelações vieram à tona, desencadearam uma reação em cadeia. O Tribunal de Contas da União foi o primeiro a agir.

Na manhã de sexta-feira (2), durante o recesso de fim de ano, o TCU decretou uma inspeção na autarquia para avaliar a documentação da liquidação. A área técnica do tribunal havia identificado supostas lacunas nos documentos enviados pelo BC.

O presidente do TCU, ministro Vital do Rêgo, tentou minimizar a gravidade: “É um processo absolutamente comum, em que o tribunal fiscaliza o órgão regulador”. Mas a questão permanece em aberto: ainda não está claro se o TCU teria competência para anular a liquidação após avaliar a documentação.

O STF entra em cena

Enquanto o TCU avançava com a inspeção, o Supremo Tribunal Federal também se envolveu. O ministro Dias Toffoli, relator do caso, decretou de ofício uma acareação entre executivos do Master, do Banco de Brasília e representantes do BC. A medida gerou tensão imediata.

Tanto a Procuradoria-Geral da República quanto o próprio Banco Central questionaram a decisão. A PGR alegou que a acareação não poderia ocorrer antes de os investigados prestarem depoimento. O BC questionou em qual condição a instituição participaria do procedimento.

Toffoli recuou parcialmente: determinou que a Polícia Federal tomasse primeiro os depoimentos, seguidos de acareação se necessário. O episódio evidenciou a tensão entre o Judiciário e a autoridade monetária em questões técnicas de supervisão bancária.

A mobilização no Congresso e a CPMI

No Congresso, a articulação política se intensifica. Na véspera de Ano Novo, o vice-líder da oposição na Câmara, deputado Carlos Jordy (PL-RJ), afirmou ter conseguido assinaturas suficientes para abrir uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o Master. O pedido será protocolado em fevereiro, na volta do recesso parlamentar.

A oposição também articula novo pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes. A razão: revelação de que o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master para atuar em defesa da instituição até 2027.

O que dizem os investigados

Enquanto as pressões políticas avançam, as investigações criminais também prosseguem. No penúltimo dia de 2025, a Polícia Federal ouviu três figuras centrais do caso: Daniel Vorcaro (controlador do Master), Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) e Ailton de Aquino Santos (diretor de Fiscalização do BC).

Os depoimentos revelaram versões conflitantes. Vorcaro manteve postura defensiva: alegou ter sido “surpreendido” pela liquidação e que o banco estava em processo de saneamento. Segundo ele, a intervenção foi desproporcional. O executivo descartou acordo de delação premiada.

Costa defendeu sua atuação no BRB, afirmando que todas as ações foram documentadas. Ele alegou que o banco público teria tido prejuízo de R$ 2 bilhões nas negociações com o Master — uma versão que Vorcaro contestou, sem detalhar sua posição.

As defesas concordaram em um ponto: quando o Master foi liquidado, as instituições negociavam a substituição de R$ 2 bilhões em ativos. A defesa do Master afirmou que havia dado garantias de R$ 9 bilhões sobre esse valor, além de deságio de 30%.

A Polícia Federal marcou novos depoimentos para janeiro. Enquanto isso, a iminência da CPMI em fevereiro e os pedidos de impeachment ampliam ainda mais o escopo de controvérsias em torno da liquidação.

O risco para o sistema financeiro nacional

O caso do Master representa um ponto de inflexão. Pela primeira vez, uma liquidação bancária enfrenta questionamentos simultâneos do Judiciário, do Legislativo e de órgãos de controle — um cenário que especialistas alertam poder criar precedentes perigosos para a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional.

A questão central é a autonomia técnica. O Banco Central, como autoridade reguladora, precisa tomar decisões rápidas baseadas em análise de risco. Mas a inspeção do TCU, a intervenção do STF em questões técnicas de supervisão bancária e a iminência de uma CPMI no Congresso criam um ambiente de incerteza. Esse cenário pode comprometer futuras decisões de liquidação ou intervenção em instituições financeiras.

As críticas são divergentes. De um lado, questionam-se os atrasos do BC diante de sinais evidentes de fragilidade do Master. De outro, defensores da autarquia acusam o Judiciário e o Legislativo de terem precipitado a liquidação, impedindo uma solução de mercado — como a compra pelo BRB. Essa polarização reflete a dificuldade de avaliar decisões complexas em tempo real, quando informações ainda estão sendo processadas.

Para o sistema financeiro, o precedente é preocupante. Se liquidações bancárias passarem a ser alvo de questionamentos judiciais e parlamentares rotineiros, o BC pode enfrentar pressões para postergar decisões críticas — aumentando riscos sistêmicos. Inversamente, se a autarquia agir com excessiva cautela para evitar controvérsias, pode deixar instituições frágeis operando por mais tempo, prejudicando depositantes e credores.

Artigos relacionados

Relatório mostra que política fiscal de Lula é “insustentável”

A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal divulgou o seu 107º...

TCU fará inspeção no Banco Central por supostas falhas no Master

O Tribunal de Contas da União (TCU) vai abrir, pela primeira vez...

Multa, Juros e Risco de Perder o Imóvel

Deixar de pagar o Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana...

Lula bate recorde com R$ 127 bi em emendas parlamentares

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrou 2025...