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como a instabilidade global afeta o seu bolso?

Conflitos entre países costumam ser percebidos como eventos distantes, restritos à diplomacia ou ao campo militar. Na economia global, porém, disputas geopolíticas afetam diretamente o preço de itens básicos do cotidiano, como alimentos, combustíveis, energia elétrica e até produtos eletrônicos.

Segundo o professor Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), guerras e tensões internacionais funcionam como “choques sistêmicos” sobre a economia mundial.

“Em um mundo caracterizado por cadeias globais de valor altamente integradas, esses eventos afetam simultaneamente preços, fluxos comerciais, condições financeiras e expectativas dos agentes”, afirma à Gazeta do Povo.

O pilar da economia mais afetado por esses choques é o da oferta. Conflitos armados e sanções econômicas costumam atingir regiões estratégicas na produção de insumos essenciais, como petróleo, gás natural, grãos, fertilizantes e metais industriais.

Segundo El Khatib, quando há risco de interrupção da produção ou dificuldade logística, o mercado reage de forma antecipada, elevando os preços internacionais dessas commodities. Do ponto de vista macroeconômico, trata-se de um “choque negativo de oferta”, em que a quantidade disponível diminui ou se torna mais cara.

Economia em conflito: o exemplo da guerra entre Rússia e Ucrânia

O mecanismo econômico citado acima por El Khatib ficou evidente com a guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em 2022.

Um estudo apresentado no Congresso de Iniciação Científica da Universidade de Campinas (Unicamp) mostra que o conflito provocou forte alta nos preços de commodities, como gás natural, petróleo, trigo, milho e fertilizantes, com efeitos na inflação global.

O preço do gás natural foi o principal impactado no conflito entre a Ucrânia e a Rússia. (Foto: Divulgação/Congresso de Iniciação Científica da Unicamp)

No exemplo da Guerra da Ucrânia, o setor de energia foi o mais afetado pelo conflito. O aumento nos preços de gás natural, do petróleo e do carvão impactou diversos países, até mesmo fora da Ásia e da Europa.

“Houve um aumento dos preços de energia, o que acabou sendo repassado para preços de outros serviços ou produtos, tendo em vista que a energia é insumo para muitos outros setores”, informa pesquisa do Congresso de Iniciação Científica.

Gráfico de estudo da Unicamp.Gráfico mostra o impacto da Guerra da Ucrânia na inflação em seis países. (Foto: Divulgação/Congresso de Iniciação Científica da Unicamp)

De acordo com o estudo da Unicamp, os Estados Unidos foram diretamente afetados devido ao impacto do preço da energia no país. No caso do Brasil, a Guerra da Ucrânia teve um impacto menor sobre a inflação.

“A guerra apenas acentuou um processo inflacionário que já estava ocorrendo por meio do aumento do preço da energia e dos combustíveis”, explica a pesquisa da Unicamp.

Além da produção, as cadeias globais de suprimentos também são afetadas. Em contextos de instabilidade, há aumento no custo do frete e dos seguros, redirecionamento de rotas comerciais, formação de estoques preventivos por governos e empresas e retração do comércio em corredores estratégicos.

“O resultado é uma perda de eficiência sistêmica: a mesma economia global passa a operar com maior custo médio e menor previsibilidade”, explica El Khatib.

Na prática, isso significa que mesmo países que não participam diretamente do conflito passam a pagar mais caro para importar insumos e bens intermediários, o que se reflete nos preços finais ao consumidor.

Como a inflação se espalha e chega ao supermercado?

Quando o preço de um insumo essencial sobe, o efeito se espalha por toda a economia. Energia, combustíveis e alimentos são utilizados na produção e no transporte da maioria dos bens e serviços.

O estudo da Unicamp sobre a guerra na Ucrânia mostra que o aumento inicial ocorreu principalmente nos preços das commodities energéticas, especialmente gás natural e carvão. Em países fortemente dependentes da energia russa, como a Alemanha, o impacto foi imediato, com forte aceleração da inflação em 2022.

Com o tempo, a inflação causada pela guerra deixou de apenas setorial e passou a afetar transportes, indústria, serviços e bens finais. O resultado foi um processo inflacionário mais amplo, observado em diversas economias ao longo de 2022 e 2023.

O impacto direto no bolso das famílias

Para as famílias, os efeitos aparecem de forma concreta: alimentos mais caros, combustíveis pressionando o orçamento, aumento da conta de energia e encarecimento de bens duráveis e eletrônicos. Com o tempo, esses aumentos se espalham também para serviços e custos fixos do dia a dia.

“Conflitos geopolíticos reduzem a eficiência do sistema, elevam custos, aumentam a inflação global e comprimem o poder de compra. Em um mundo economicamente integrado, não existe mais ‘conflito distante’: todo grande evento geopolítico relevante acaba, inevitavelmente, sendo sentido na inflação, no câmbio e no custo de vida de todos nós”, resume El Khatib.

Embora não seja possível eliminar esse risco, o professor afirma que é possível administrá-lo do ponto de vista financeiro.

Entre as estratégias estão maior cautela com endividamento de longo prazo em períodos de incerteza global, reforço da reserva de emergência, diversificação do patrimônio e decisões mais estratégicas de consumo, como antecipar ou adiar compras de maior valor conforme o ciclo de preços e câmbio.

O efeito do dólar e dos mercados financeiros

Outro canal importante é o financeiro e cambial. Em momentos de alta incerteza geopolítica, investidores globais tendem a buscar ativos considerados mais seguros, como títulos do governo americano. Segundo o professor da FECAP, esse movimento, conhecido como “flight to quality”, costuma fortalecer o dólar e pressionar moedas de países emergentes.

Para economias como a brasileira, isso significa maior desgaste do real, o que encarece automaticamente produtos importados e reforça a inflação de bens comercializáveis, como combustíveis, alimentos industrializados e eletrônicos.

“Quando há alta do preço internacional da commodity e valorização do dólar ao mesmo tempo, o impacto sobre os preços domésticos é duplamente amplificado”, afirma El Khatib.

É por isso que choques geopolíticos elevam frequentemente a inflação, mesmo em países que não estão diretamente envolvidos nos conflitos.

Do ponto de vista da política monetária, esse tipo de choque cria um problema complexo. A inflação sobe não por excesso de demanda, mas por aumento de custos.

A elevação das taxas básicas dos juros pode ajudar a conter efeitos secundários e expectativas inflacionárias, mas não resolve a causa original do problema, que está na diminuição da oferta.

Conflito EUA e Israel x Irã: quais os impactos até agora?

As tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã já provocaram reflexos no mercado internacional, especialmente após o fechamento do Estreito de Ormuz. Isso ajuda a explicar como disputas entre países podem afetar diretamente o bolso do consumidor.

No mercado financeiro, o petróleo do tipo Brent chegou a subir cerca de 10% na abertura do mercado asiático nesta segunda-feira (2), refletindo a preocupação dos investidores com uma possível escalada do conflito. Ao longo da manhã, porém, os preços perderam parte da força em meio a movimentos de ajuste.

Segundo o economista Robson Gonçalves, da Fundação Getulio Vargas (FGV), os efeitos podem se tornar mais severos caso haja interrupções prolongadas na oferta. Em entrevista à CNN, ele alertou que o encarecimento do petróleo rapidamente se transforma em inflação global. “Fretes ficam mais caros, insumos sobem e o custo final acaba chegando ao consumidor”, explicou.

Na prática, isso significa que um conflito geopolítico a milhares de quilômetros do Brasil pode influenciar o preço da gasolina, dos alimentos, de produtos industrializados e até de passagens aéreas. Fato que reforça como crises internacionais acabam impactando o dia a dia das famílias.

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