A matriz hídrica corresponde a mais da metade da potência instalada no sistema elétrico brasileiro. E, apesar de as grandes hidrelétricas, como Itaipu, serem o grande motor dessa fonte limpa, as hidrelétricas de pequeno porte também contribuem para a geração de energia e devem ganhar um papel ainda mais relevante nos próximos anos, especialmente pelo potencial que apresentam.
De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) — capacidade 5 e 30 MW — e as Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) — até 5 MW — somam 6,9 mil MW de potência e representam 3,1% de toda a potência disponível na matriz energética brasileira. Pode até parecer pouco, mas isso significa metade da capacidade de Itaipu. Fora isso, há o equivalente a uma Itaipu inteira em aproveitamentos mapeados mas ainda inexplorados.
“O Brasil é um país de vocação hídrica, então as hidrelétricas de pequeno porte são importantes, são fontes com despachabilidade, previsibilidade e capacidade de geração mais estável em comparação com fontes eólica e solar. E não competem entre si, são complementares”, aponta a presidente da Associação Brasileira de PCHs e CGHs (Abrapch), Alessandra Torres. “Elas são baterias naturais e amortecedores do sistema”, acrescenta.
As pequenas usinas estão espalhadas por todo o Brasil. No total, são 432 PCHs e 708 CGHs em operação. As regiões Sul e Sudeste sobressaem, mas o Centro-Oeste também se destaca. Santa Catarina, por exemplo, soma 255 unidades em operação. Na sequência aparecem Minas Gerais (205), Mato Grosso (131), Rio Grande do Sul (123) e Paraná (116).
Elas funcionam praticamente da mesma maneira que uma grande hidrelétrica, mas dispensam barragens enormes e podem ser instaladas em rios de pequeno e médio portes. Essa facilidade, aliada a investimentos mais baixos, ajuda a capilarizar a geração de energia limpa pelo país, inclusive garantindo mais confiabilidade na distribuição a pequenos centros urbanos e áreas rurais.
“As usinas de pequeno porte são muito importantes porque se localizam de forma distribuída pelo país, otimizando o sistema de transmissão e garantindo uma geração de energia elétrica firme, limpa, renovável e de baixo custo de forma descentralizada”, explica o presidente-executivo da Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa (Abragel), Charles Lenzi.
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Pequenas hidrelétricas têm potencial de geração ainda pouco explorado
Apesar do potencial das pequenas hidrelétricas, elas ainda são pouco exploradas no Brasil. Um estudo da Abrapch com base em dados da Aneel mostrou que o país possui pelo menos 1.089 aproveitamentos hidrelétricos mapeados, com potencial para adicionar 14.106 MW ao sistema. “É uma Itaipu de pequenos projetos”, observa Torres.
Segundo a Aneel, há 111 pequenas hidrelétricas em construção ou já aprovadas para construção. Parte delas foi autorizada a partir do 39º Leilão de Energia Nova A-5, que aconteceu em agosto de 2025 e fechou a contratação de 55 PCHs e 8 CGHs, totalizando quase 800 MW de potência em 11 estados brasileiros. No total, espera-se investimento superior a R$ 8 bilhões nesses empreendimentos, com início de operação prevista para 2030.
“Os leilões são o instrumento melhor viabiliza a expansão das pequenas hidrelétricas. O leilão do ano passado foi um marco”, avalia a presidente da Abrapch. “Não podemos prescindir das grandes hidrelétricas e grandes reservatórios, mas enquanto esses grandes projetos não saem do papel, o que se pode viabilizar no curto e médio espaço de tempo são as PCHs e CGHs”, complementa Torres.
O Ministério de Minas e Energia (MME) programava para o primeiro trimestre deste ano um novo leilão de PCHs, mas acabou adiando o certame para o segundo semestre. A expectativa é de que esse novo leilão viabilize a contratação de 3 mil MW a partir de hidrelétricas de pequeno porte.
Hidrelétricas de pequeno porte desempenham papel social e econômico ao entorno
A Aneel lançou um estudo em 2022 que mensurou o impacto das PCHs e CGHs para a economia das cidades onde são instaladas. O resultado apontou um aumento de aproximadamente 19,9% no IDH dessas cidades na comparação com municípios de mesmo porte sem esses empreendimentos.
Segundo o presidente da Abragel, Charles Lenzi, uma das características mais importantes dessas pequenas hidrelétricas é a capacidade de gerar empregos. “São projetos de pequeno porte, mas distribuídos em diversas comunidades espalhadas pelo país. Como sua cadeia produtiva é 100% nacional significa que todos os empregos e resultados são produzidos no país”, destaca.
Ele acrescenta que a energia gerada nessas usinas tem um impacto menor na tarifa paga pelos consumidores. Além disso, os benefícios ambientais aparecem com maior preservação das nascentes, da qualidade da água e da gestão do meio ambiente na área de influência da usina.
“Portanto, é fundamental que não só políticas públicas de contratação da fonte, mas também aquelas relacionadas às questões de licenciamento ambiental, financiamento, atributos ambientais e sistêmicos, recursos hídricos e demais aspectos regulatórios estejam sintonizados e atualizados de modo a possibilitar os investimentos necessários para a real viabilização e implementação dos projetos e potenciais existentes”, completa Lenzi.












