A taxa média de juros no Brasil atingiu 32,8% ao ano em janeiro – o maior patamar desde novembro de 2016, segundo o Banco Central (BC).
Empresas e pessoas físicas estão pagando 7,8% a mais do que no início do governo Lula (PT), pressionados pela deterioração das contas públicas. E mesmo com uma leve redução da Selic em março, especialistas alertam que os efeitos só chegarão ao bolso após seis a nove meses.
O aperto atinge de forma mais dura as pessoas físicas: a taxa média chegou a 38% ao ano em janeiro deste ano – o maior patamar desde maio de 2017. Mas as empresas também sofrem, com juros de 21,4% ao ano, o maior custo em mais de uma década.
O reflexo já aparece na inadimplência: o índice médio do sistema financeiro atingiu 4,2% em janeiro, o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011.
Os dados mostram uma deterioração generalizada do crédito, cujo encarecimento não se explica apenas pela Selic. O spread bancário – diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o que cobram dos tomadores – atingiu 21,9 pontos percentuais em janeiro, o maior nível desde abril de 2017.
Como o custo de captação permaneceu estável, a alta foi impulsionada pelo risco crescente: bancos cobram mais de quem pede emprestado porque confiam menos na capacidade de pagamento.
Mesmo caro, o crédito tende a encolher: grandes instituições financeiras já sinalizam aumento da seletividade na concessão de crédito ao longo de 2026, segundo Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP.
Um dos principais motivos para a manutenção da Selic em níveis elevados é a situação fiscal, que se deteriorou ao longo do terceiro mandato de Lula. Segundo Peterson Rizzo, gerente de relação com investidores da gestora Multiplike, o descontrole fiscal funciona como freio que limita movimentos mais agressivos de queda nos juros.
A taxa Selic próxima de 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas, coloca o Brasil como o segundo país com os maiores juros reais do mundo: 9,23%, segundo a Lev Intelligence.
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Contas públicas no vermelho travam juros
As contas públicas registram déficits desde novembro de 2014, no governo Dilma Rousseff. A única exceção ocorreu entre o final de 2021 e o início de 2023, quando receitas extraordinárias pós-pandemia equilibraram temporariamente as contas.
O problema se acentuou no terceiro mandato de Lula. Dos 36 meses até dezembro de 2025, as contas fecharam no vermelho em 29. O endividamento público saltou 7 pontos percentuais, atingindo 78,7% do PIB.
E há perspectiva de agravamento fiscal, com projeção de dívida de 83,8% do PIB em 2026 e de 94,1% em 2030, segundo o boletim Focus do Banco Central. Na prática, esse cenário restringe cortes mais agressivos na Selic, dando sobrevida aos juros altos.
Desaceleração econômica abre janela estreita para cortes
A piora fiscal não foi suficiente para impedir o primeiro corte na Selic desde junho de 2024. Em março, o Copom reduziu a taxa, de 15% para 14,75%, pressionado pela desaceleração econômica e pela necessidade de evitar recessão – ainda que o cenário fiscal recomendasse cautela.
O crescimento do PIB em 12 meses desacelerou de 3,6% no primeiro trimestre de 2025 para 2,7% no terceiro trimestre, segundo o IBGE. Indicadores de alta frequência confirmam a tendência: o Monitor do PIB, da FGV-Ibre, registrou em novembro taxa acumulada de 2,2% em 12 meses, sinalizando continuidade do arrefecimento.
Inflação impede alívio mais rápido nos juros
A inflação acumulada em 12 meses ficou em 4,4% em janeiro, dentro do intervalo de tolerância da meta, mas as medidas subjacentes de inflação – como serviços e bens industriais – vieram acima do esperado.
Segundo Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord), o resultado mostra que “a desinflação segue irregular e sujeita a ruídos”. Para ele, o dado não impede o ciclo de cortes da Selic, mas reduz o grau de conforto do Banco Central.
Gabriel Galípolo, presidente do BC, tem sido enfático: a política monetária exige cautela, parcimônia e “calibragem”. A mensagem ganha peso com o IPCA de janeiro, que mostra desinflação irregular – cenário que ainda justifica postura defensiva e cortes de juros graduais.
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