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quem são os políticos na “teia” de Vorcaro

As mensagens do celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam uma rede de contatos que atravessa o núcleo do poder em Brasília, com menções a ministros, líderes do Congresso e até ao presidente da República. Além disso, o envolvimento atual ou passado do banqueiro e de ex-sócios com autoridades políticas amplia a possível teia de influências construída por Vorcaro junto à alta cúpula do poder.

Nas mensagens enviadas pela Polícia Federal à CPMI do INSS — obtidas na Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes do Master —, Vorcaro cita nomes que têm sido associados a políticos, como o presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), e figuras proeminentes do Centrão, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Menções a reuniões mantidas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ministros do governo também integram o material que reúne as mensagens. O conteúdo inclui diálogos com a então namorada de Vorcaro, Martha Graeff.

Quem aparece nas mensagens de Vorcaro

A Gazeta do Povo reuniu os políticos possivelmente envolvidos na teia do banqueiro, seja por relações comerciais e políticas, seja por mensagens recentemente divulgadas.

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República

Uma reunião entre Lula e Vorcaro fez com que o escândalo alcançasse o Planalto. Em 4 de dezembro de 2024, Graeff e Vorcaro conversam sobre uma reunião, que o banqueiro descreve como “ótima” e “muito forte”. Em seguida, ele diz que o futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, havia sido chamado para participar.

A reunião com Lula, que não consta da agenda oficial, havia sido revelada em janeiro deste ano, antes mesmo da divulgação das mensagens. Durante o encontro, Vorcaro teria apresentado ao presidente e à sua equipe críticas ao funcionamento do sistema bancário brasileiro. O banqueiro teria reclamado da concentração do mercado nas mãos de “grandes instituições financeiras”.

Na ocasião, Lula teria respondido que eventuais irregularidades ou disputas no setor deveriam ser analisadas pelo Banco Central. O presidente confirmou, no mês passado, que recebeu Vorcaro em Brasília, a pedido do banqueiro. O encontro, segundo o mandatário, foi organizado por Guido Mantega, que atuou como ministro da Fazenda e do Planejamento em seus governos anteriores e no da presidente Dilma Rousseff (PT).

Rui Costa, ministro-chefe da Casa Civil

Segundo Vorcaro, o ministro Rui Costa participou da reunião que teve com Lula no Planalto. Antes disso, o político já havia se tornado uma conexão entre o Planalto e o Master quando da liquidação do Banco Pleno, que geria a carteira de crédito do Credcesta.

A criação do cartão de crédito consignado para servidores públicos pelo ex-sócio de Vorcaro e dono do Pleno, Augusto Ferreira “Guga” Lima, ocorreu durante o mandato de Rui Costa no governo da Bahia, em 2018. No ano seguinte, em 2019, Lima levou o Credcesta ao Banco Master ao se associar a Vorcaro por meio do então Banco Voiter, posteriormente rebatizado como Banco Pleno.

Em fevereiro, após a revelação da reunião de Lula com Vorcaro, Rui Costa saiu em defesa do presidente. Segundo o ministro, para governar de forma democrática, o presidente precisa ouvir representantes de vários segmentos.

“Se algum ator que, ao longo do tempo, representa algum segmento, vier a cometer erros, isso não inviabiliza o presidente”, disse Rui Costa no Congresso Nacional.

Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda

Guido Mantega foi citado como o articulador da reunião entre Vorcaro e Lula em dezembro de 2024. Segundo o site Metrópoles, o ex-ministro de Lula e Dilma teria atuado como consultor do Banco Master com remuneração mensal de cerca de R$ 1 milhão, em articulação que teria contado com a indicação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

Como consultor, Mantega teria participado das tratativas para a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB), que não se concretizou. Ele ocupou o cargo até semanas antes de o Banco Central liquidar a instituição, em novembro de 2025. Os rendimentos de Mantega teriam somado ao menos R$ 11 milhões.

Sobre as acusações, Mantega negou quaisquer irregularidades e afirmou que sua atuação foi técnica e dentro da legalidade. Sua defesa ainda alegou que todas as consultorias foram técnicas e regulares e que não há provas de que sua participação esteja ligada a favorecimentos ilegais.

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Ricardo Lewandowski, ex-ministro da Justiça

O escritório de advocacia do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski foi contratado pelo Master pouco antes de sua nomeação para o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Do início de 2023 a agosto de 2025, período em que ocupou o cargo no governo Lula, o escritório de Lewandowski teria recebido R$ 250 mil mensais do Master. Ainda que a versão oficial tente blindar o ex-ministro, fontes indicam que sua associação ao escândalo foi determinante para sua saída do governo, no início de janeiro deste ano.

Segundo o Metrópoles, o contrato com o Master teria rendido cerca de R$ 6,5 milhões brutos ao escritório da família de Lewandowski, dos quais R$ 5,25 milhões após a ida dele para o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Ao assumir o ministério, Lewandowski deixou a sociedade, no dia 17 de janeiro de 2023. Dois de seus filhos permaneceram como sócios do escritório: Enrique de Abreu Lewandowski e Yara de Abreu Lewandowski.

O ex-ministro afirmou que deixou o escritório de advocacia após aceitar o convite para ser ministro. Segundo sua assessoria, após sair do Supremo, ele retornou às atividades de advocacia, prestando serviços a diversos clientes, inclusive o de consultoria jurídica ao Banco Master.

“Ao ser convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em janeiro de 2024, Lewandowski retirou-se de seu escritório de advocacia e suspendeu o seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), deixando de atuar em todos os casos”, diz a assessoria de Lewandowski em nota.

Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado Federal

O senador Jaques Wagner está envolvido diversas situações que o conectam ao Master. Primeiramente, com a venda da rede de supermercados estatal Cesta do Povo para Augusto Lima, em 2018, durante o governo de Rui Costa na Bahia.

Wagner era secretário estadual de Desenvolvimento Econômico e participou das negociações, inclusive da que criou o consignado Credcesta. No ano seguinte, a carteira de ativos seria incorporada ao Voiter, futuro Banco Pleno, e então ao Master, quando Augusto Lima se tornou sócio de Vorcaro.

Publicamente, Wagner negou qualquer envolvimento com irregularidades do Master e com Lima. “Estou tranquilo com essas coisas… pelo fato de eu ter estabelecido relação com ele, não quer dizer que eu tenha negócio com ele”, afirmou em entrevista à Rádio Baiana FM, em janeiro deste ano.

Em outro episódio vinculando Wagner ao escândalo do Master, o portal Metrópoles também atribuiu ao senador a indicação de Guido Mantega para consultor do banco, o que ele negou. Jaques Wagner, contudo, admitiu que indicou o escritório de advocacia de Lewandowski para assessorar a instituição.

“O senador Jaques Wagner foi consultado sobre um bom jurista e lembrou de Ricardo Lewandowski, que havia acabado de deixar o Supremo Tribunal Federal. Seguramente, o banco achou a sugestão adequada e o contratou”, disse a assessoria do senador em nota.

Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados

Vorcaro citou o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) ao afirmar para a namorada que teve um jantar na “residência oficial” com “Hugo e seis empresários”.

Procurado pela Gazeta do Povo, o presidente da Câmara não se manifestou até o momento sobre o teor das mensagens. Motta tem mantido indefinição quanto à abertura de uma CPMI sobre o escândalo do Master.

Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal

Nas mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, há menções ao presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP). Em conversa com a namorada, Vorcaro afirmou ter comparecido a uma reunião na residência oficial do Senado, sem que Alcolumbre soubesse.

O encontro, em agosto de 2025, teria durado até a meia-noite. A Gazeta do Povo procurou a assessoria de Alcolumbre, que não comentou o conteúdo das mensagens. Um aliado político do senador, indicado por ele para gerir um fundo de previdência no Amapá, foi preso na investigação do Master. Alcolumbre nega a indicação.

O presidente do Senado tem sido driblado pela oposição ao governo para aprofundamentos nas investigações do escândalo do Master.

Ciro Nogueira, senador e presidente nacional do Progressistas

Senador pelo Piauí, Ciro Nogueira foi citado por Vorcaro em troca de mensagens com Martha Graeff. Ele disse à namorada que queria apresentá-la ao senador, por se tratar de um “grande amigo”. Em outra ocasião, Vorcaro comemorou uma proposta parlamentar enviada pelo senador.

“Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco”, escreveu o banqueiro. Trata-se de uma emenda que pretendia ampliar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para até R$ 1 milhão por CPF. A proposta não foi aprovada.

Após a revelação das mensagens, o senador afirmou que mantém diálogos com centenas de pessoas, o que não o torna próximo apenas por eventualmente interagir com elas.

Nogueira disse que “está tranquilo” quanto às investigações da Polícia Federal e que “não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração [do Master]”.

Nogueira ainda é citado em e-mail da empresa de aviação Prime You, de novembro de 2024, segundo o qual teria se deslocado para o autódromo de Interlagos em helicóptero. Vorcaro foi sócio da empresa. O senador negou a viagem e afirmou que compareceu ao evento por meio de van.

Antônio Rueda, presidente do União Brasil

O advogado Antônio Rueda é citado no mesmo e-mail que Ciro Nogueira sobre o uso de helicóptero da Prime You para comparecer ao autódromo de Interlagos, em São Paulo. Na mensagem, há menção a “Antônio Rueda e 07 convidados” para uma aeronave.

Segundo apuração da Gazeta do Povo, o presidente do União Brasil foi apontado por parlamentares da oposição ao governo como um dos principais obstáculos para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Master no Congresso. A assessoria de Rueda não respondeu aos questionamentos enviados pelo jornal.

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Nikolas Ferreira, deputado federal

Nikolas Ferreira viajou em jatinho pertencente a Daniel Vorcaro, segundo reportagem do jornal O Globo. A aeronave integrava a frota da empresa Prime You durante a campanha presidencial de 2022. Segundo apuração do jornal, o parlamentar teria viajado a nove estados e ao Distrito Federal entre 20 e 28 de outubro, durante o segundo turno das eleições.

A caravana Juventude pelo Brasil foi liderada por Nikolas e pelo pastor Guilherme Batista, ligado à Igreja Lagoinha. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, também é pastor ligado à mesma igreja. Assim como Vorcaro, ele foi preso na quarta-feira (3), durante a terceira fase da Operação Compliance Zero.

Em vídeo publicado em suas redes sociais, Nikolas ironizou o episódio e afirmou que não pode ser responsabilizado por atos futuros de alguém. O deputado explicou que Vorcaro era sócio da empresa que foi contratada para prestar serviços de aviação para o evento Juventude pelo Brasil e que, naquele momento, não havia quaisquer suspeitas sobre a empresa ou sobre Vorcaro.

“Há literalmente quatro anos, fui convidado para participar de um evento chamado Juventude pelo Brasil e quem fez a logística, que eu não fiz, contratou uma empresa, que eu não contratei, para poder fazer o transporte. Ou seja, era de uma empresa que tinha vários sócios, e um deles era o Vorcaro — afirmou. — A narrativa de agora é que eu sou responsável por um ato futuro de alguém? Caramba, como eu vou prever isso?”, afirmou no vídeo.

Jair Bolsonaro, ex-presidente da República

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi beneficiado por doação feita à sua campanha presidencial em 2022 por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O valor doado foi de R$ 3 milhões. Até o momento, não há elementos que impliquem Bolsonaro de alguma forma no escândalo do Master.

Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, partido ao qual Bolsonaro era filiado, afirmou que as doações para a campanha foram legais e transparentes. Segundo ele, as pessoas fizeram doações pela “força e pelo prestígio do Bolsonaro”.

“As doações que foram feitas, nós tivemos muitas doações e falam que foi a maior. A maior não foi essa, foi uma de R$ 7 milhões e tem doações que eram feitas na conta de eleição do Bolsonaro e tinham doações que eram feitas no partido e tivemos doações muito maiores do que essa”, afirmou.

O ex-presidente foi citado por Vorcaro em suas mensagens. Em julho de 2024, também em conversa com a namorada, o banqueiro xingou Bolsonaro de “idiota” e “beócio”. A irritação do banqueiro deveu-se a uma postagem do ex-presidente nas redes sociais sobre suspeitas envolvendo o Banco Master.

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