A liquidação do Banco Pleno — do empresário Augusto “Guga” Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master — volta a jogar holofotes sobre o sistema de crédito consignado que impulsionou a expansão meteórica do grupo. O modelo foi sustentado por decisões administrativas tomadas em governos petistas da Bahia, que ganham nova relevância com o avanço das investigações.
Conforme mostrou a Gazeta do Povo, Lima tornou-se um dos focos de maior preocupação do Planalto no enredo do Master justamente por causa da operação do Credcesta, cartão de crédito consignado voltado a servidores públicos baianos.
A engrenagem começou a ser estruturada em 2018, na gestão de Rui Costa, hoje ministro da Casa Civil. No ano seguinte, em 2019, Lima levou o Credcesta ao Banco Master ao se associar a Vorcaro por meio então Banco Voiter, posteriormente rebatizado como Banco Pleno.
A liquidação, que ocorre enquanto Guga Lima já enfrenta sete requerimentos na CPI do INSS para depoimento e quebra de sigilo fiscal e bancário, ainda pendentes de análise pelo colegiado, tende a dar mais impulso às investigações do caso baiano.
“Augusto Lima desempenhou papel relevante na criação, desenvolvimento e expansão de produtos de crédito consignado vinculados ao Master e ao modelo CredCesta, o que o coloca em posição central no contexto que envolve concessões de crédito a beneficiários do INSS”, escreveu o senador Izalci Lucas (PL-DF) em um dos requerimentos.
Vorcaro também está na mira da CPI. Desde o fim de 2025, a comissão aprovou requerimentos para sua convocação e para a quebra de seus sigilos bancário, fiscal e telemático, dentro de um conjunto de pelo menos 59 solicitações relacionadas ao caso Master.
O banqueiro chegou a ter depoimento marcado para 5 de fevereiro, posteriormente reagendado para 23 (segunda-feira), mas o ministro André Mendonça, do STF, tornou facultativo seu comparecimento.
Em contrapartida, a liberação de dados sigilosos do banco à CPI, também autorizada por Mendonça na sexta-feira (20), foi celebrada e deve, na avaliação do relator Alfredo Gaspar (União-AL), reforçar a apuração:
“Sempre defendi que não se combate fraude escondendo informação. A determinação de envio imediato do material à Polícia Federal fortalece a investigação e o nosso trabalho”, afirmou.
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Credcesta: a origem dos consignados
O Credcesta, por sua vez, é alvo de três solicitações na mesma CPI. Parlamentares pedem a quebra de sigilos bancários da companhia, que tem sua origem na Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da rede popular de mercados Cesta do Povo. Em 2017 e 2018, o governo baiano promoveu dois leilões para tentar vender a estatal, que acumulava prejuízos, mas não houve interessados.
A solução para tornar o ativo mais atraente veio do próprio Guga: incluir no edital a autorização para que o comprador operasse um cartão consignado exclusivo para cerca de 400 mil servidores, pensionistas e aposentados do estado. A negociação foi direta com o senador Jaques Wagner (PT-BA), então secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, apurou a revista Piauí.
Publicamente, Wagner já negou qualquer envolvimento com irregularidades do Master e com Lima. “Estou tranquilo com essas coisas… pelo fato de eu ter estabelecido relação com ele, não quer dizer que eu tenha negócio com ele.” afirmou em entrevista a Rádio Baiana FM, em janeiro.
A rentabilidade do negócio foi corroborada pelo Decreto nº 18.353, que disciplinou o programa de consignação em folha para créditos rotativos, criando uma margem adicional de 10% para o cartão consignado — além dos 30% já permitidos para empréstimos tradicionais —, ampliando o limite de desconto em folha dos servidores.
Para operar o cartão, Lima precisava de um banco. Procurou o BMG, que recusou a proposta. No mesmo prédio, fechou acordo com o Master: por R$ 25 milhões, Daniel Vorcaro comprou 50% do Credcesta, que se tornaria um dos principais ativos do banco e passou a operá-lo por meio do Banco Voiter, que já pertencia ao grupo.
Mais tarde, em 2022, o governo estadual editaria novo decreto para restringir a portabilidade dos contratos vinculados ao Credcesta. A medida dificultou a migração dos servidores para outras instituições financeiras e reforçou a posição da operação no mercado baiano de consignados.
Lima teve ascensão meteórica
Assim, em menos de uma década, o dono do Banco Pleno rompeu os limites de sua terra natal, na Bahia, ganhou espaço na Faria Lima e expandiu o negócio do consignado para 24 estados e 176 municípios. O negócio foi estruturado com o apoio de diversos fundos.
Também manteve relações estreitas com a Reag, gestora de recursos que foi alvo, em agosto de 2025, da Operação Carbono Oculto, sob suspeita de operar para o PCC, e posteriormente teve a liquidação decretada pelo Banco Central (BC).
À medida que o Master passou a enfrentar maior fiscalização do BC, o arranjo societário mudou. O Voiter foi desmembrado e transferido para o controle de Lima, sendo rebatizado como Banco Pleno para operar os consignados.
A autorização do Banco Central veio em julho de 2025, num prazo incomum de apenas 45 dias, já em meio às turbulências que atingiam o Master, investigado por fraudes em carteiras de crédito vendidas para o Banco Regional de Brasília (BRB).
Na avaliação do advogado Luís Garcia, especialista em Compliance e Governança e sócio do Tax Group, a atuação do Banco Central no caso expôs uma falha regulatória do sistema.
“O BC identificou inconsistências no conglomerado, mas demorou a agir de forma efetiva. Já havia feito questionamentos reiterados ao Master, mas medidas mais duras não foram adotadas”, afirma.
Quatro meses mais tarde, com a liquidação do Master e a deflagração da Operação Compliance Zero, que levou à prisão temporária de Vorcaro e Lima — ambos atualmente em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica —, a defesa do dono do Banco Pleno se disse “surpresa” porque “Augusto Lima já havia se desligado definitivamente de todas as suas funções executivas no Banco Master em maio de 2024”.
Modelo de negócio insustentável
Apesar das facilidades proporcionadas pelo Credcesta, o Banco Pleno não conseguiu fazer frente ao braço de operações em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), com rentabilidade acima da de mercado, estratégia principal do modelo de negócios do grupo.
“O problema é que o ativo central — o crédito consignado — tem teto natural de crescimento, é muito limitado”, afirma Garcia. “Você não consegue fazer um aumento de captação condizente com as promessas de pagamento dos CDBs.”
Tanto o Master quanto o Pleno, sustenta o advogado, operaram sob uma distorção perigosa: o uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como pilar comercial.
Na prática, o teto de R$ 250 mil garantido pelo fundo passou a funcionar como argumento de venda, criando uma falsa sensação de segurança. “Você faz a captação, mas são captações limitadas à questão dos R$ 250 mil em termos de possibilidade de reembolso.”
Quando a confiança do mercado foi abalada, especialmente após a liquidação do Master e a deflagração da Operação Compliance Zero, instalou-se o que ele define como uma “corrida de saques”. Com menos recursos entrando e mais investidores retirando aplicações, o desequilíbrio se acelerou.
Com isso, dois bancos que representavam menos de 1% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional — o Banco Master, com cerca de 0,57%, e o Banco Pleno, com 0,04% — serão responsáveis por um desembolso bilionário e sem precedentes do FGC.
As estimativas indicam que o fundo deverá pagar aproximadamente R$ 40,6 bilhões aos credores do Master e cerca de R$ 4,9 bilhões no caso do Pleno. Somadas a outras liquidações no mesmo ciclo, essas operações podem consumir até 32% do patrimônio total do FGC.
Garcia também aponta responsabilidade das estruturas privadas de controle. “Nenhuma auditoria independente apontou o problema do Master como sendo grave ou sinalizou com a devida contundência a deterioração da qualidade dos ativos.”
Outro lado
A Gazeta do Povo procurou o Banco Central, Jaques Wagner e Rui Costa, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.
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