Lar Economia Venezuela pode influenciar Petrobras e contas públicas
Economia

Venezuela pode influenciar Petrobras e contas públicas

A prisão de Nicolás Maduro e a iminente volta de petroleiras americanas à Venezuela colocam em risco adicional as já deterioradas contas públicas brasileiras. O país acumula déficit primário desde novembro de 2014 e viu o rombo das estatais federais triplicar em 2024 — saltando de 0,02% para 0,06% do PIB entre maio e novembro.

A ameaça agora é a queda nos dividendos da Petrobras. Com empresas como Exxon Mobil e Chevron de volta ao país vizinho, a oferta global de petróleo deve aumentar, derrubando preços e reduzindo os repasses da estatal ao Tesouro Nacional.

O cenário, porém, não é apenas de riscos: as sanções americanas mantidas por Donald Trump bloqueiam as exportações venezuelanas e abrem janela para o Brasil se tornar fornecedor alternativo de petróleo à China no curto prazo.

O histórico fiscal brasileiro mostra que se trata de uma fragilidade estrutural, não conjuntural. Segundo o Banco Central, houve apenas um breve respiro entre o final de 2021 e o início de 2023, quando a recuperação econômica pós-pandemia e receitas extraordinárias geraram superávit temporário. A deterioração, porém, voltou com força — e uma queda nos dividendos da Petrobras tornaria esse buraco ainda mais profundo.

Reabertura da Venezuela pode reduzir repasses ao Tesouro

A possível volta de petroleiras americanas à Venezuela ganha relevância justamente nesse contexto de fragilidade fiscal. Com Maduro preso, quem assumiu a presidência venezuelana foi Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente e figura influente na indústria petrolífera. Pragmática, ela tem sinalizado disposição para cooperar com os Estados Unidos e criar condições para que companhias americanas explorem as maiores reservas de petróleo do mundo.

O retorno dessas empresas pode ser rápido. Se petroleiras como a Exxon Mobil retomarem operações em larga escala, a oferta global de petróleo vai aumentar e pressionar os preços para baixo. Projeções de analistas do setor indicam que a Venezuela poderia voltar a produzir 3 milhões de barris por dia — hoje produz menos de 1 milhão.

O impacto para a Petrobras seria direto. Como a exportação de petróleo é uma das principais fontes de receita da estatal, preços mais baixos significam lucros menores e, consequentemente, menos dividendos para a União — agravando ainda mais o quadro fiscal brasileiro.

Luís Garcia, sócio da consultoria tributária Tax Group, ressalta que a Petrobras já enfrenta oscilações causadas pela produção global e por questões de governança interna. “A fragilidade fiscal do governo e seu alinhamento com a antiga ditadura venezuelana também podem limitar o acesso do Brasil a contratos e investimentos”, afirma.

Sanções americanas abrem janela para exportações brasileiras

No curto prazo, entretanto, o Brasil pode sair ganhando. As sanções econômicas mantidas por Trump criam uma oportunidade comercial imediata: com parte significativa da produção venezuelana destinada à China bloqueada, o país pode se tornar o principal fornecedor alternativo de petróleo ao gigante asiático.

Na prática, as sanções significam que grande parte das exportações venezuelanas segue proibida — incluindo o petróleo que abastecia a China, seu principal comprador antes das restrições.

Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, enxerga aí uma janela estratégica. “O backup do óleo da Venezuela para a China será o Brasil”, afirmou à CNN.

A substituição, no entanto, não é automática nem simples. O petróleo venezuelano é pesado e rico em enxofre, usado pelos chineses para fabricar betume na construção civil. O brasileiro, por sua vez, é mais leve e de melhor qualidade. Ainda assim, enquanto durarem as sanções, há espaço considerável para o Brasil ampliar suas exportações.

Preços menores aliviam inflação, mas afetam investimentos

Os efeitos da eventual retomada da produção venezuelana variam conforme o horizonte temporal. No curto prazo, as sanções funcionam a favor do Brasil, redirecionando as compras chinesas e ampliando as exportações nacionais de petróleo.

Já no médio prazo, o cenário se inverte. O aumento da oferta global derruba os preços, reduzindo as margens e receitas da Petrobras. Em cascata, caem também os dividendos ao governo federal, e os planos de investimento da estatal podem ser revistos ou adiados.

Nem tudo, porém, é negativo. Combustíveis mais baratos tendem a reduzir a inflação e aliviar a pressão sobre os juros — um alívio para consumidores e para a política monetária do Banco Central. Por outro lado, o redirecionamento de investimentos para a Venezuela pode afetar a B3 (bolsa de valores brasileira), enquanto empresas nacionais enfrentarão concorrência acirrada de companhias americanas de grande porte.

Oportunidades para empresas e profissionais brasileiros

Além do petróleo em si, há oportunidades na reconstrução da infraestrutura venezuelana. Décadas de má gestão depreciaram gasodutos, refinarias e instalações portuárias. Equipamentos foram vandalizados, componentes essenciais desapareceram, e a manutenção foi simplesmente abandonada.

Para Vitor Sousa, analista da Genial Investimentos, essa deterioração representa uma oportunidade de negócio. “Os ativos podem vir a mercado a preços muito baixos, gerando possibilidades lucrativas para empresas e investidores brasileiros”, diz. Não se trata de começar do zero, mas de recuperar e modernizar uma infraestrutura já instalada.

O Brasil tem outro trunfo importante: conhecimento acumulado. A Petrobras atuou por anos na Venezuela, e executivos brasileiros da estatal e de empresas do setor de óleo e gás conhecem bem o mercado local — um diferencial que pode ser decisivo na disputa por contratos.

Ricardo Inglez de Souza, especialista em Comércio Internacional, enxerga o cenário com otimismo cauteloso. “A tendência é de estabilização dos preços e, eventualmente, redução para patamares mais razoáveis, com comércio mais estável regional e globalmente.”

Restauração da Venezuela levará anos

O otimismo, porém, precisa ser temperado com realismo. Mesmo com estabilidade política, a retomada plena da produção venezuelana demandará tempo e bilhões de dólares. Estimativas da consultoria Argus apontam que a restauração completa levaria anos.

Gustavo Vásquez, responsável na Argus pela precificação de petróleo nas Américas, destaca que a infraestrutura está amplamente deteriorada. Há ainda outro desafio: desde os anos 1990, a indústria sofre com a perda massiva de talentos técnicos — funcionários foram afastados da petroleira estatal venezuelana PDVSA (Petróleos de Venezuela) por razões políticas, e reunir mão de obra qualificada será outro obstáculo.

Apesar das incertezas, o mercado já reage. Desde a prisão de Maduro, ações da Chevron e da Exxon Mobil subiram, refletindo apostas no retorno ao país. As empresas, contudo, só entrarão com garantias sólidas de estabilidade jurídica e ambiente favorável aos negócios.

Artigos relacionados

Flávio Bolsonaro culpa Lula por endividamento recorde de famílias

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, divulgou neste domingo (13)...

Agro seria um dos setores mais afetados com fim da escala 6×1

Aposta de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para ganho de capital...

895 mil famílias ganham mais com benefícios do que com emprego

Para pouco menos de um milhão de famílias, a formalização do trabalho...

Por que o endividamento no Brasil segue alto em 2026?

Mesmo com o desemprego em níveis historicamente baixos no Brasil, quase 80%...